sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ninguém te Proibiu a Canção

...O velho Augusto César anda sem rumo pela calçada da praça central. Ele pega agora o caminho para observar o chafariz. Chega em passos curtos em trajes de tons de marrom e creme. A boina quase se movimenta com uma brisa. Ele se encosta no para-peito para olhar a água se movimentando lentamente, mas a substancia está estática. A praça não funcionava mais desde 1988. Fechada pois a prefeitura não queria mais gastos com um monumento que vinha sofrendo depravação. Eles pararam de dar bola, e as coisas pararam de fazer sentido. Mas naquele dia, estavam ainda vivas as lembranças de sua vida. Elas podiam ser reencenadas a partir do brilho daquele olhar.

Ode Felicitária

...Desejos são pedaços de carne podre, são larvas que se alimentam com voracidade de tudo o que vêem. É certo que se duas partes contaminadas se encostarem, não existem mais duas partes. Como nunca existiu. Mas temos dois olhos, e a percepção disso só aumenta o poder das distorções. Como se duas coisas conseguissem ter a mesma ideia sobre uma.
...Nós, como canibais desdentados, matando leões para comer suas fezes. Criamos direitos e deveres para conseguirmos assim esquecer a busca dos sorrisos. Concentramos as atenções de lanternas para espelhos, e nos maravilhamos com o resultado de um corte no meio da esperança.

Desterros e Coesões

...Laterais do tempo que pelas beiradas se criam. Não fazem tanto sentido quanto fizeram; num passado que nunca existiu. As estrelas se guiam pelo vento, e a rosa ainda se orienta pelas marés. Nunca se ficou sabendo ao certo; qual era o verdadeiro paradeiro das almas, nunca ficou sabido certo, quem era o homem. Erguiam muros a tempos e templos para adorar o filho que nunca veio. Pois se o príncipe nunca nasceu, quem ocupou o trono?
...Salvem as cabeças baixas que duram séculos de opressão. Impressões que são apenas borros de tinta, flutuando no papel. Nos panos de seu vestido, resta apenas a certeza, de que os olhos já estão secos e acostumados são as narinas com o clima. Não podem ser tão úmidos, não podem estar unidos. Um único ideal nunca foi o ideal para o qual se permanece. Um viva ao tempo que passa e ao manto que mantém erguida a pedra. Em mil faces cortadas segura o brilho real de uma vitória. São muitos que não olham. São tantos que não se pode olhar, ninguém quer tirar a prova. Pois não tem um ali que mereça ter a prova tirada. Nem o santo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Diamantes São Para Sempre - Parte II

...A dona do orfanato polonês repousava no sofá, como de costume fazia todas as tardes. Usava um longo vestido de algodão, tingido de preto a antiga moda cristã. Quando um dos órfãos se aproximou. Trazia em suas mãos uma caixinha de fósforo. Pé ante pé, andou até a escrivaninha, onde pegou alguns papeis de documento e os repousou sobre a cabeça da mulher. Ali mesmo riscou o fósforo, e o estrago estava feito. Saia da sala calmamente, ouvindo com orgulho os gritos de dor senhora. A chama que tomou conta do papel logo queimou sua retina e bastou um pouco da brasa cair na roupa para dominar o vestido. Slakoviski olhou uma última vez para onde estaria seu dedo do meio deformado, e mostrou para aquele corpo em chamas. Ainda que não tivesse importância naquele momento. Era o que ele aguardava desde o dia em que ela havia o quebrado. 

Diamantes São Para Sempre

...Colocou as crianças em fila, como quem colocava condenados. De costas para a parede. Os olhos de predador tentavam distinguir, dentre aqueles, o verdadeiro culpado. Eram oito crianças, cada uma com seus talvez dez anos. Talvez menos. Todos usavam o mesmo uniforme cinza. Todos meninos com o cabelo cortado em forma de tigela. Todos tinham as mãos sujas e nervosas. Todos carregavam sobrenomes poloneses. Todos órfãos.
..."Senhor Slakoviski..." Os pequenos cerraram os olhos. "...Um passo a frente". Todos eles sabiam, que dentre os oito. Este era o que menos tinha chance de ter feito qualquer coisa errada. A dona do orfanato também sabia. Mesmo assim encarou as sardas do menino como uma confissão. A pequenina cabecinha se ergueu. Ele havia entendido. Sua mãozinha estendeu-se. O ar vibrou violento e rompeu em um estalo, dramatizado pela queda do garoto ao chão. Lentamente ele se levantou. Não se entregaria. A vara ergueu se no ar mais uma vez. E mais outra. E mais outra. O quinto vergão, no mesmo lugar, deu lugar a nascente de um fino rio de sangue. Era o suplício do corpo, suicidando-se, mandando pelos poros seu nutriente. Mais uma vez os pequeninos fecharam os olhos.
...Haviam passado alguns dias, Slakoviski repousava na janela, com a mão enfaixada. Na gase, restavam ainda sinais da atrocidade, quando um dos garotos se aproximou. Era o mais velho da turma, estava encostado na parede e junto com os outros amigos, assistiu o corajoso garoto, ter um dedo quebrado.
..."Slakoviski..." Chamou o menino parado à porta. O órfão virou-se e viu Krushenski o olhando. Eles caminharam um em direção ao outro e se abraçaram como irmãos. "Obrigado amigo!"  

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Suplício de Rato

  1. Todo entocado escondendo-se da ratoeira armada pelo patrão na semana passada: O olhar amigável, bigodinho que era um nada debaixo daquele nariz abatatado; tão grande e redondo o nariz que não precisava aproximar tanto para enxergar a olho nu os poros da pele, todos preenchidos pela poeira poluente da cidade grande; região onde futuramente governarão os cravos; as sobrancelhas arqueavam com uma expressão de dar dó e ao mesmo tempo de se mostrar superior, por traz do terno; o gordo, representado nas feições ante-postas apertava com sua mão os finos dedos de seu empregado magricelo do sorriso amarelado, na falta de um dente Joca falava: "Mais senhô do cé... E carque no trabá da porca..." Riam dois, cada qual com seu motivo oculto. O motivo de Joca era agradar, não sabia nem falar, quanto escrever. No curto período que frequêntou a escola ninguém o ensinara a pensar. De modo que: Ninguém sabe como, mais o Dr. Santão deixou claro sua intenção nas entrelinhas, claro o suficiente para o proletariado entender; e foi assim, que Joca começou a usar seu esqueleto fino e longo para desviar dos tiros de olhar e voz.
  2. Chegava em lugar de descançar, a toca nao era suficiente. Implicava com tudo o que parecia uma fresta para patada. Nas últimas semanas tratou-se de sumir da vista de todos. E não foi demitido por ninguém, se não por justa causa. Ficou sabendo pelo folheto da empresa, que dizia: "Dispensados do mês" E estava escrito segundo um homem na rua, seu nome, numero de identidade, idade, telefone e uma descrição bem da mais ou menos. Como rato em cima de ratoeira enferrujada ele andou, mas acabou pisando muito forte na trava.

Os Motivos


  1. A vida em uma cidade grande pode ser desestimulante. Algumas pessoas sabem disso. Fábio era uma delas, um advogado mediano, que penava para ganhar o pão de cada dia. Esforçava-se mas não conseguia comprar a casa dos sonhos. Sempre questionava ao pastor de sua igreja: "Mas, eu não sei o que há de errado! Contribuo com a minha parte do dízimo todo o mês. Corretamente! Deus apenas não me atendeu ainda!" Da batina o homem fitava a barba mal feita do advogado e dizia: "Tenho certeza de que Deus há de te atender... O que você pode fazer é aumentar a sua contribuição... Talvez assim, o Senhor suba você na lista de prioridades dele!" "Você acha mesmo padre?" Um brilho de esperança nasceu no rosto de Fábio. "Com certeza meu filho!"
  2. Do outro lado da rua, Annita, secretaria tentava cruzar a rua para avisar ao seu chefe, que o chefe dele, havia o demitido e posto outro em seu lugar. Não teve muito sucesso. Pois quando entrou na agropecuária que ficava do lado da igreja "Assembléia do Santo Salvador" e perguntou pelo Dr. Pontes, o homem de bigode grisalho atras do balcão falou que ele havia saído já a alguns minutos com uma nova coleira para seu novo cachorro. Com uma cara pré-ocupada ela saiu da construção que fedia à cachorro para a calçada irregular, e dali tentava cruzar a rua novamente quando Fábio pôs se ao seu lado e simpático comentou: "Será que conseguiremos cruzar ainda hoje?" A loira deu apenas um meio sorriso e voltou a se concentrar em seu carro. "Sou advogado! Deus irá me ajudar!" "Qual Deus? Quê Deus?" "O Senhor!" Os olhos castanhos se encaravam, as duas bocas não nutriam sorrisos. "Não achei engraçado!" Foi quando Annita percebeu de onde aquele homem nem muito gordo, nem muito magro havia saído, ela soltou um sorriso, o advogado entendeu errado.
  3. "Tão bom encontrar uma irmã!" "De fato..." Falou confusa, mas logo retratou-se. "...Estou com pressa, tenho que ir!" "Nos vemos no culto hoje a noite!" Ela tentou cruzar mas não teve chance. "Não. Não quero ninguém me roubando." A cara que Fábio fez naquele dia, foi a mesma que Annita quando, duas semanas depois reconheceu o homem em uma pousada retirada com temática de campo. Mas a cara que a secretaria fez quando percebeu aquele rapaz caminhando em sua direção na hora do café da manhã foi um pouco mais feia. Foi fria. "Não quero ouvir baboseiras sobre a sua religião." Estranhou. Não entendeu; e quando entendeu apenas saiu. No início da tarde, um pequeno grupo deslocou-se para uma caminhada aos arredores da fazenda, os dois estranhos estavam lá.
  4. No meio de uma mata fechada, um grupo de sete andava em fila quando de repente pararam. Os últimos não entenderam, mas logo ficaram estáticos. O tempo não transcorreu normalmente a partir deste momento; o silêncio foi o grande culpado. Nenhuma palavra era trocada, apenas gestos, toques e olhares. Como um grupo de surdos mudos. Ninguém precisa saber a linguagem dos sinais para aprender a usá-la com perfeição quando necessário. Em uma clareira, a luz tomava conta das árvores retorcidas e mostrava um solo sem grama, a terra vermelha, úmida, formava barro tão liso quanto gelo. No meio da clareira uma onça debruçava-se faminta em uma carcaça incompreendida. Como uma criança que quebra um vaso, todo o grupo deu meia volta e seguiu como se estivesse em um enterro. Saindo da trilha, depois de 15 longos minutos de caminhada, suspiraram. Não sabiam o que fazer, estavam alegres, sorridentes. Estavam vivos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Peso da Derrota

  1. E quem disse que há outro jeito de pensar? Me encarou, ao fundo dos olhos negros havia uma fúria desmedida, eu não fazia em minha mente nenhum molde de dimensão para aquele tipo de prensa; minha pouca experiência estava perdida no meio de um mar de sensações estranhas. Olhei para o gramado, irregular, derrapagens, os trechos descolados, as raízes saltando leves mexiam com uma brisa sutil... O barro na sola do meu tênis encardia minha meia, o suor descia até a ponta do meu nariz, trazia o desconforto para cada dobra do meu corpo, a musculatura suplicava... exaustão; ao mesmo tempo, as palavras daquele lazarento ecoando em minha cabeça e aumentando chama do gás que elevava meu espírito. Voltei para o campo, reuni os rapazes e com eles, bolamos uma ultima estratégia de jogo, a qual levaríamos para o show dos últimos tempos.
  2. A bola oval pesou no gramado, na contagem específica ela pesou em minhas mãos, e foi passada, de um a um, mas nenhum discurso que conseguisse fervilhar em sua alma por toda a eternidade seria capaz de inverter o placar daquela noite.
  3. O fim de semana passou, mas eu não passei por ele. Em casa, deitado a todas as horas mentalizando os erros, um a um; eles iam pregando, se afundando cada vez mais fundo em minhas chagas recentes. A dor desmedida ia flagelando lentamente, espalhando a dor como veneno de serpente injetado diretamente em sua cabeça. Você sente o calor mortal se diluir em sua carne, falhar seus sentidos, tenta se debater, se manter de pé, mas está babando, tendo convulsões enquanto a fera está por te quebrar e engolir. Seus olhos são lentamente trazidos para de baixo do couro frio, o desespero chega em seu nível maior e você chora em presença da morte; como se naquele momento adiantasse, naquele momento, você já morreu. É só esperar o espírito encontrar o caminho.
  4. Em cobertas esconde a vergonha, você não fez o máximo, você não foi o máximo. você falhou com a pessoa mais importante. Não falhou com seu amigo, nem com seu treinador, não com sua namorada, ou com toda a torcida que dependia de você. Você falhou com sua honra. Não merece olhar para a cara de tristeza de ninguém, observando de canto, o seu andar pelo corredor. Não merece o toque no ombro, nem ouvir: Você deu o seu melhor. Porque nunca é verdade.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Execução na Praça

  1. Nublada tarde. Nublado dia. Nublou a hora. O instante não deve ser pintado com cores vivas, apenas tons de cinza, marrom e preto. O instante deve ser esquecido. O aglomerado estava em torno de uma armação de madeira. Como um palco teatral, um pouco mais alto que uma mesa, dando a todos visão do que em cima do tablado acontecia. No meu entorno, pessoas sem banho, o fedor vivia entre os homens. Vivia em seus costumes medievais. No alcance da visão geral, um rei. Um rei que tirava a coroa e a entregava para quem fazia a aplicação das leis. O pedaço de metal pouco reluzente, pouco polido foi deixado de lado em um púlpito precário. O homem do bolso traseiro tirou um pergaminho e expressou meia duzia de palavras, que para todos pareciam muitas palavras sem meias. De bruço o condenado deitou com expressão corajosa na guilhotina. Apenas com o canto da vista, procurou o vulto em vestes escuras que ia soltar a corda. A apreensão na cena que viria a seguir deixou a praça em silêncio sepulcral. O rei tentou exprimir seus últimos instantes, mas não conseguiu. No meio de uma frase sem importância o carrasco soltou a lâmina obliqua que desceu com uma mortal sede. Mas não se ouviu o barulho da cabeça descansando no cesto para onde deveria escorrer. O que ouvimos foi um grito, uma suplica dolorida de uma alma transgressora. O homem atras do púlpito olhou para o carrasco que novamente subiu a lâmina. O sangue estava impresso nela até uma altura. O corte não havia sido perfeito. Olhamos para o pedaço de ferro subindo, seu fio, o poder de tirar a vida estava reduzido pela ferrugem e imperfeiçoes do uso. Uma mulher, perto de mim, levava as mãos a boca, barbarizada, descobrindo naquele instante o que, provavelmente, seu marido havia sentido. Novamente a lâmina desceu e desta vez fez o rei desmaiar, sua cabeça ainda ficou presa por fios de pele e músculo e só parou onde devia parar com mais uma ultima descida do metal.

O Segundo Depois

  1. Saiu para a rua o homem grosseiro, andava sem olhar para ninguém, para nada. Não olhava nem para si mesmo. Não podia ser diferente a imagem que sucedeu. Nenhum carro acendeu o farol para ele. Foi morto ali mesmo, atropelado. Ninguém olhou para ele, ninguém parou para olhar, pois estavam ocupados demais olhando para eles mesmos. O ônibus amarelo foi o primeiro que deixou o corpo todo esfolado. As mãos ensanguentadas, o osso da perna com uma ponta para fora. Um hematoma feio na testa, e na nuca, a cabeça aberta. Sangue, cabelo e pele, uma massa escrota. Ficou ali e o sol não saiu. Um apressado carro preto descolou as pernas do tronco, moeu a carne que estava grudando as partes. A artérias, já desfalidas tentavam se esvaziar, um pouquinho mais, e mais um córrego. Nenhum cachorro quis beber o sangue. Nenhuma mosca tinha tempo de plantar larvas no cadáver. A camionete cinza veio firme. Como rolo compressor ela ganhou velocidade. Pesada, andou sobre o peito, andou sobre os ossos, sobre o asfalto. Fez tudo sumir e quando alcançou a cabeça, arrebentou de uma vez o crânio. O sangue respingou e espalhou o DNA falecido por alguns metros, mas o que nunca desgrudou das entranhas da roda foi um pedaço de miolo que tomou conhecimento das estradas do mundo.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Todo o Romantismo

  1. Ele nasceu num dia chuvoso. Um dia frio. Um dia que quer ser esquecido pelas tragédias. Um avião matou 347 pessoas na Alemanha, uma tsunami deixou 45 mil desabrigados no Japão, e houveram algumas tempestades elétricas nos Estados Unidos. Foi um tenebroso 14 de julho. Quando ia para o pré escolar, roubava giz de cera para riscar as paredes dos vizinhos. Sempre foi gordinho com um nariz de batata. Foi crescendo e perdendo cada vez mais a motivação, só não perdia o peso porque estava em sua genética. O que não tinha conseguia. Não mentia bem, mas enganava quem fosse mais burro. Um adolescente gordo, cheio de espinhas, que tinha sonhos eróticos com tudo o que se mexia. Ninguém conseguia ser poupado de sua carência exibida em versos ridículos e sujos. Tornou um homem gordo com nariz de batata sem escrúpulos. Para não falar da má postura.
  2. Ela nasceu de um estupro. Sua mãe sempre trabalhou na vida, não parou nem para passar manteiga no pão. Vivia amarrada ao pé da mesa, sujeita a algum freguês que gostasse. O moletom velho cobria o esqueleto. A maquiagem ''forçada'' escondia ela toda de imperfeições. Tinha os braços maiores que as pernas e a cabeça menor que o pé. Para quem pensa que chega a idade para consertar o rosto tanso, engana-se muito. Só não conseguia ser mais infeliz por falta de dinheiro, sonhou sempre em casar com um cofre que lhe conseguisse manter a vida vazia de aparências. Pois a aparência vazia ela já possuía.
  3. Encontraram um no outro a felicidade eterna.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Texto Infantil

  1. Havia, em uma cidadezinha do interior, um prédio muito alto. E na janela mais alta do ultimo andar: um moleque descuidado. Ele brincava com seu carrinho. Fazia o barulho do ronco do motor com a boca. “Brrrruuuummmm!” Um ronco muito potente. Às vezes ele começava a gritar. E a emoção subia a cabeça. O garoto gritava e gritava por muito tempo, com cada vez mais força. Também, não tinha ninguém para pedir: “Faça menos barulho, por favor?” O que, para ele, não seria muito legal. Mas seria importante, porque, no andar de baixo o seu Nicolau, que trabalhou a noite toda, queria descansar e não conseguia. Não tinha ninguém para pedir: “Por favor, desça já da janela. É muito perigoso!” E assim, ele acabou pulando atrás do seu caminhãozinho favorito, um carrinho dos bombeiros com mangueira que esguicha água e luzes que acendem.

Poesia Capitalista

  1. Eu quero.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A Serra

  1. Aprendeu seu oficio com o seu pai. Lembrava de cada palavra proferida por seu mestre a cada machadada que vinha enterrar o metal cada vez mais fundo na medeira. "Não bata assim burro". O cascudo acetou e tonteou a cabeça do pequeno João. "Vai acabar com o poder de corte da lâmina. Bata de cima pra baixo. Experimente bater errado mais uma vez". E as delicadas mãos de criança iam se moldando para o trabalho pesado. Quantos calos foram, quantos calos estouraram. Quando pela primeira vez o chicote rabo de tatu foi usado em sua carne. Na modesta casa de toras, com a qual João tinha um apresso especial, tudo se encontrava no mesmo lugar desde a morte do pai. Os dois sempre foram muito ligados, principalmente depois que a mãe os abandonou. As lembranças do lenhador viviam com ele, todas as 24 horas do dia. Subiam a montanha até o bosque onde juntos permaneciam até a hora do almoço. Juntos desciam e até um pouco antes do anoitecer estavam na serra, transformando toras em tábuas. E todos os fins de semana, juntos, desciam toda a montanha e faziam compras na vila mais próxima. Pois João não tinha ninguém além de Faquir, o fila brasileiro marrom, que o acompanhava tanto quanto suas lembranças.
  2. Faquir chegou até João quando ainda era um filhote. Estava quase morto em uma caixa na beirada do asfalto. A caixa estava em bom estado e esta foi a razão que fez a chevrolet a10 laranjada encostar. Com as mãos quase sem sensibilidade o homem tirou o animal da caixa e ia levando o objeto quando olhou para traz. Voltou e em duas semanas Faquir era seu companheiro de verdade. Com o tempo o cachorro se desenvolveu deixando de ser um frágil filhote para se tornar um musculoso adulto. Começando também a se comportar como um cão de guarda.
  3. Como qualquer outra tarde aquela acontecia. João estava usando a serra, que ocupava metade do espaço de sua garagem, ou da cobertura que usava para o carro. Como a máquina fazia um barulho muito alto e estridente Faquir ficava do lado de fora, mas desta vez foi diferente. O cachorro começou a latir para algo. Como se estivesse defendendo seu território contra uma grande ameaça. Quando deu conta do que podia estar acontecendo, o lenhador desligou o motor da serra e pegou a velha espingarda de dois canos. Correu temendo que tipo de criatura podia estar por perto. Abriu a porta do galpão com um forte chute e a arma em punho. Apurou os ouvidos para descobrir de que direção vinham os latidos: "Faquir!" Gritou para o amigo que continuava latindo. Deu alguns passos até conseguir olhar pela estrada e percebeu um grupo de jovens acuados pelo cachorro. Nem Faquir, que latia ferozmente, nem um dos três dava um passo para qualquer direção. João ficou de certa forma aliviado. Deu um silvo alto, fazendo a atenção de todos desviarem para ele. O fila brasileiro imediatamente ficou em silêncio e começou a se afastar do grupo.
  4. Eram dois rapazes e uma moça, linda, feições delicadas, cabelos longos e castanhos, trazia uma corrente no pescoço com o nome escrito 'Elen'. Um dos rapazes se adiantou: "Desculpe senhor, mas por que a arma? Não queremos fazer nada". João se sentiu um pouco idiota por ainda apontar a espingarda para os três e se desculpou: "Pensei que fosse um urso". Eles riram e pareciam não saber que tinham ursos pela região. "O que traz vocês para este lado da montanha?" "Viemos ver o mirante, mas parece que estamos perdidos..." "Com certeza estão. Cheguem". Os três se aproximaram da cabana e começaram a conversar com o lenhador, Faquir começou a se apresentar como um animal amigável e carente. O mais alto dos três era Alencar, ganhava por pouco do primo Higor com quem dividia o peso da caminhada.
  5. João, tão solitário gostou de conhecer os rapazes. Foi com a maior educação que explicou o caminho que deveria ter sido tomado. "Estas coisas acontecem mesmo, quando era pequeno me perdi por algumas vezes..." A sua voz parou, mas sua mente voltou a lembrar do tempo, que enquanto criança tinha que se esconder dos acessos de fúria do pai. "...Moleque inútil! Só me traz vergonha. Não aguenta com o peso do machado!..." O pequeno João abria a porta do chalé e pela escura noite ele ia. Sem ter direção. Quando voltou a si, Elen fazia graça com a falta de direção deles: "...Não se acham nem com um mapa!" Todos estavam rindo e o homem conseguiu disfarçar bem o momento de distração. "Acho que nós precisamos ir indo..." Comentou Higor sem se mexer. Não demorou para Elen concordar: "Verdade, senão escurece..." "Bobagem, se for necessário eu levo vocês até o pé da montanha, fiquem para uma xícara de chá?!" Sugeriu o solitário com um meio sorriso que se abriu depois que Alencar demonstrou certo interesse na profissão de João: "Ficamos, sim. Para uma xícara de chá e se não for muito incômodo, gostaria de conhecer a máquina". "Você diz a serra? Sim, maior prazer em mostrá-la a vocês". Todos sorriram. João sorriu mais, estava aliviado pois não tinha acostumado com a ideia de ficar sozinho outra vez. Os braços e pernas grosseiros foram até um armarinho pegaram os condimentos e os transformaram em quatro xícaras de um líquido quente com um cheiro forte e um pouco entorpecedor.
  6. O sol estava começando a querer pintar o céu com tons avermelhados, quando, em torno da mezinha os primeiros goles foram tomados. O começo do gosto amarrava a boca, mas o final se mostrava magnífico. "Este chá é do que?" Perguntou Elen com o interesse claro. Os olhos opacos do lenhador buscaram a resposta longe, mas nenhuma lâmpada veio iluminar a dúvida. "Sabe que... Eu não sei exatamente. Minha mãe preparava para mim quando eu ficava doente". Mentiu. "Realmente uma delícia, mas agora eu quero ver a serra". Manifestou-se Alencar quando terminou sua dose. "Vamos, vamos". Convidou o anfitrião, que ao perceber que nenhum dos outro dois mostrou interesse perguntou: "Vocês não querem ver?" "Eu, vou ficar aqui com o Faquir, não terminei meu chá ainda, não gosto muito... Lembro me do meu tio..." Elen disfarçou a emoção e Higor inventou qualquer desculpa para ficar junto com a prima.
  7. "Eu estou meio tonto..." Reclamou o garoto quando o primo saiu para conhecer a propriedade, com o dono, por uma porta lateral que dava diretamente no galpão. "É este chá! Uma erva forte demais. Deve ser algo contra dor." Elen também sentia sua cabeça pesada. Os dois estavam quase tontos. Ouviram a serra ser ativada. "Barulhinho chato hein! Não é a toa que o cara vive sozinho!" Brincou Higor. Elen riu. "Que maldade, ele parece um bom sujeito". "Eu espero que seja bom motorista, já tá meio escuro demais lá fora". Eles foram silenciados. Na porta João apareceu com a espingarda apontada para eles. Tinha toda a roupa e o rosto respingados de sangue. "Vocês não podem me abandonar aqui". Disparou com vontade. A cabeça da moça se partiu. O tiro acertou o meio da testa dela. Os miolos voaram pelos ares. Manchando todo a cabana. Higor, mais do que rápido abriu a porta e saiu em disparada. Com mais raiva o assassino o perseguiu com poucos passos e um disparo que aparentemente nada acertou. "Faquir pega!" O cão que se divertia lambendo alguns restos de cérebro e sangue no chão saiu em disparada à cata do fugitivo. Ofegante e desesperado, procurava forças para gritar, procurava coragem. Mas não podia denunciar sua posição. Não sabia mais para onde estava indo, se estava voltando ou subindo a montanha. Ouviu mais um disparo. Não sentia dor, mas por alguma razão não conseguia aumentar a velocidade. O primeiro disparo contra ele, havia pego de raspão na perna, ele mancava lamentavelmente. Conseguia ouvir os latidos e quase o trotar de Faquir, vindo a seu encontro quando pisou em falso e sumiu no precipício. Em sua mente, vagavam pensamentos. Estaria salvo? O abismo era fundo? Mas era tarde demais. Sua cabeça explodiu em uma rocha sobressaltada e seu corpo desfalecido continuou até encontrar o fim do abismo.
  8. Lá em cima, o cão latia, deixando sua caça ir embora. Quando João alcançou seu amigo percebeu o que estava acontecendo. Voltaram juntos para casa. Sem uma palavra ser dita no caminho. Fechou a porta principal sem dar atenção ao corpo feminino caído sobre a mesa. Foi até o galpão onde seu carro começava a denunciar o que havia acontecido. As lembranças vieram. Alencar vinha logo atras dele quando comentou: "Você tem um belo carro aqui!" Estava realmente admirado. "Gosta de carros antigos?" "Sim! Máquinas são minhas paixões". "Este era do meu pai, ele, adorava esta carro. Ele tinha outra cor, mas meu pais mandou pintar quando a mãe nos deixou". "Puxa, sua mãe parecia ser uma pessoa adorável". "E era..." Novamente, visualizou o pequeno João de pé, uma bonita mulher envolvendo os cabelos longos e castanhos em um lenço vermelho. Um lindo sorriso. Deu um beijo na testa. Fala alguma coisa e sai. Segundos depois o pai pergunta pela mulher. "Nossa! Que bela serra você tem aqui! Pode ligar ela para mim? Quero ver as engrenagens em funcionamento" João toma um tapa e vê o homem sair com uma espingarda. Tiros. Gritos. Pelo fresta da porta vê as pernas de um vestido sacudirem. "Filho, sua mãe nos deixou..." Aquelas palavras ecoavam cada vez mais alto em sua alma. Sentiu algo tocando seu corpo. Agarrou os cabelos de finos de Alencar e fez o rosto do jovem encontrar com a serra com cada vez mais força. "Mamãe foi embora papai. Eu vi!" Estava tomado pelo ódio de sua vida. Todo respingado de sangue visualizou a espingarda e a tomou em mãos. E agora a arma voltava para seu lugar. Olhou para toda a cena, e foi ao seu quarto. Sentou em sua velha cama, por algum tempo e rumou ao intocado quarto dos pais. Onde os cadáveres deitavam cada um em seus respectivos lados da cama. Pela primeira vez, tirou o anel de pedra azul da mão semi putrefaz de sua mãe. E o segurou com força. Talvez se tivessem restado algumas lágrimas em seu coração, elas escorressem agora enquanto seu corpo o fazia lembrar do pai violando o cadáver que por todos os anos permaneceu ali. Calado.
  9. João caminhou lentamente até a serra, que estava ligada desde o momento em que Alencar pediu. Olhou para si mesmo. "A mamãe ama você". Sentia cada dente da serra destroçar devagar seu corpo. O canto da cabeça, seu pescoço, peito, barriga, os órgãos se perdendo, virando carne moída. "A mamãe ama você".

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Alex, Eu e Cirus

  1. A galera tava jogada, sem nada para fazer. Eu encostado no muro, Alex sentado um caixote de madeira e o Cirus em pé, de costas para a rua, sem movimento. Nenhum carro, nem mesmo um maldito fusca passava por ali havia algum tempo. Então fomos tomar um guaraná no seu Domingos, logo ali na esquina. Quem encontramos lá? Esmerald. Estava ela lá, igual a uma puta com o novo namorado. Um esquisito de um bairro ali pra cima. Alex ficou vermelho na mesma hora. Mas eu consegui desviar a atenção dele. Cirus pegou algumas garrafas e fomos beber ali na calçada mesmo. Depois do showzinho de Esmerald ela foi com o 'bacana' em uma lata velha qualquer. Eu tava de boa. Mas tinha gente que não. Depois de bate um papo alto. Demos mais algumas voltas pela quadra. Não foi uma tarde muito boa. Segui meu rumo e umas quatro horas depois Cirus me liga alucinado.
  2. "Corre pra cá, corre pra cá" Eu fui, mas não fazia ideia do que estava pra acontecer. O Alex empurrava o bacana, o bacana empurrava o Alex, até ai beleza. Mas não é que o filho de uma puta tira uma faca! O bacana tirou uma faca! Não deu outra né. Só escuto um tiro. Esmerald nunca ligo pro retardado. Nem sentiu. Pra você vê, ela nem tava lá quando aconteceu. E quando soube, nem uma lágrima rolou. Tinha sangue e miolo pra todo o lado. O tiro pego na nuca. O cara morreu na hora. Nem precisa fala que o povo já tinha vazado com medo do mundo. Medo de qualquer estralo. A gente fez o certo né, empacotamos e queimamos o cara. Cirus cuida muito bem daquela arma, ela parece que nunca foi usada até aqui está tudo tranquilo. Alex voltou com a putinha dele e tudo estava como antes.
  3. Todo meio dia, almoçava e ia me reunir com os dois. Mas na tarde seguinte não foi assim, Alex não foi nos encontrar. E como é aquele ditado? Quando a montanha não vai até Maomé, Maomé vai até a montanha. Então eu e Cirus fomos atrás do pimpolho perdido. No caminho ele me pergunto: "Bruno, que cê acha que rolô?" Falei que provavelmente nada. Que ele devia ta comendo a putinha e tirando todo o atraso. Quando chegamos na baia dele, não deu outra, não é mesmo? Falou algo assim: "Manos, não vai rolar mais, vou pega um trampo e cuidar da minha vida" Ri pra caralho. Ele tava dominado. Totalmente dominado, tava virando honesto. Já não dava mais. Do caminho que ele escolheu, não tinha volta. Também ele não parecia querer voltar. Pensei com Cirus e um a menos não iria afetar em nada.
  4. Dali pra frente só nós dois, eu sentado no caixote, Cirus encostado na parede e a rua deserta, sem nem um maldito fusca. As vezes um falava algo, um papo surgia de um conto. Um papo alto. Outro dia Cirus sugeriu: "Vamos toma um guaraná ali na esquina, no seu Domingos?" Sim, nós fomos. Não tinha ninguém lá. Aquela tarde foi um porre. Também foi a ultima vez que eu vi o seu Domingos. O velho foi preso por trafico ilegal de drogas. Ele era o patrão do lado oeste da cidade. Depois que ele foi em cana, um outro cara, um tal de Farias dominou a região. Dica valiosa, se você deixar seu negocio com alguém, não deixe com um bundão.
  5. Farias, na maior parte do tempo era banaca, no bom sentido. Mas as vezes dava uns pitis estranhos. Não gostei de trabalhar com ele. Cirus também não, mas o que iriamos fazer não é mesmo? Ele mando um tal de Gará, pra se ficar de costas pra rua. Esse era nosso novo Alex. Um bosta, tinha jeito de espião. Então aprontamos para ele se dar mau. Não deu certo. O cara estava por cima da carne seca. Deu um bolo fenomenal e tive de dar no pé. Cirus não teve tanta sorte. Eles nos perseguiram e acabaram atropelando ele. Minha sorte foi ter me escondido em uma árvore. Acho que nunca passei tanto medo. Cortei meu cabelo e fui de dedão para a cidade vizinha. Não me acharam até agora. Aqui fiz algumas amizades. É o que mais rápido e melhor faço. Entreguei também as posições das bocas do Farias e com meu bando, organizo silenciosamente a guerra. Por que um dia esse mundo será meu.

Meta-Textualidade-Fechada

  1. O neto estava parado, esperando um brilho divino aparecer sobre ele. Sentado na casa da falecida avó, esperava no escritório, seu velho avô chegar da cozinha. Batia a borracha azul da ponta de um lápis de escrever amarelo em uma folha de papel branca. Olhava em volta enquanto balançava as pequenas pernas na confortável cadeira de couro bordô. O velho chegou com um fraco sorriso, um andar lento. Na cabeça branca uma boina. No corpo frágil um suéter xadrez. "Oh! Que é que você está querendo?"
  2. "Uma história". Respondeu a criança. O avô analisou a situação. Olhou em volta, vários livros. Livros que ele adquiriu. Pois era um senhor muito culto. Estudado. "Uma história é fácil de ser escrita. Primeiro você deve saber que ela tem que ter começo, meio e um fim. No começo você cria uma situação. De qualquer caráter. Se você quer uma historia de mistério, faça um começo misterioso, com um enigma, ou alguma situação inexplicada. No meio você cria um problema. Algo que dê uma guinada na narrativa. O meio é como se fosse o tempero da sua massa. Em uma historia de amor, é neste ponto em que o mocinho e a mocinha se desentendem por culpa do vilão. E no fim você resolve tudo o que propôs". "Obrigado vô!"

Ex-Quilo-Saxo-Bia

  1. Olhou para os lados, olhou de novo. Atravessou. Estava em segurança do outro lado da calçada. Deu alguns passos. E parou perto do muro. Respirou. Mais alguns passos. Os olhos focalizaram uma mulher, baixa, gordinha, ruiva com má postura. Usava roupas estranhas. Fora do padrão, não conseguiu dar nenhum passo enquanto ela se movimentava. Tentou desviar o olhar para a parede. Mas a coloração do vestido vermelho que quase cobria um pouco do joelho em contraste com a meia-calça preta que fazia vazar banha para os lados não deixou. A parede também não era comum. Toda com pequenas montanhas. Também havia uma formiga andando em círculos. Engoliu um grito desesperado. Fechou os olhos e mentalmente começou a contar.
  2. Um... Dois... Três... Quatro... Cinco... Seis... Sete... Oito... Nove... Dez... "Alguma coisa errada moço?" Abriu os olhos e sentiu vontade de morrer. A estranha gorda olhava, fingindo interesse. Os cabelos ensebados dela incomodavam muito. Tentou falar, tentou de novo e mais uma vez até sair o falso: "Muito obrigado, não". A mulher forçou. Ele saiu correndo, mas as pernas não obedeceram. "Está tudo bem?" Agora ela segurava, com seus grossos dedos, uma mistura de carne, baba e açúcar. Pela primeira vez, notou que a mulher carregava um saco com alguns suspiros. "Não, estou ótimo". Dizia para si mesmo, nada conseguia ser colocado para fora. Fechou os olhos mais uma vez e começou a contar.
  3. Sua mente respirava e tentava desligar-se urgentemente deste mundo, mas os impulsos externos o mantinham preso em um pesadelo. Abriu os olhos mais uma vez. E tudo continuou preto. Ele vomitou. Abriu os olhos e enxergou a mulher que tentava o ajudar com nojo de si mesma. E depois de alguns segundos, ela também gorfou uma mistura amarela de baba e suspiro. Os dois se amavam.
  4. Casaram em sua pouco aventura de olhos fechados, para não causarem mau estar a todos os outros viajantes.