- Saiu para a rua o homem grosseiro, andava sem olhar para ninguém, para nada. Não olhava nem para si mesmo. Não podia ser diferente a imagem que sucedeu. Nenhum carro acendeu o farol para ele. Foi morto ali mesmo, atropelado. Ninguém olhou para ele, ninguém parou para olhar, pois estavam ocupados demais olhando para eles mesmos. O ônibus amarelo foi o primeiro que deixou o corpo todo esfolado. As mãos ensanguentadas, o osso da perna com uma ponta para fora. Um hematoma feio na testa, e na nuca, a cabeça aberta. Sangue, cabelo e pele, uma massa escrota. Ficou ali e o sol não saiu. Um apressado carro preto descolou as pernas do tronco, moeu a carne que estava grudando as partes. A artérias, já desfalidas tentavam se esvaziar, um pouquinho mais, e mais um córrego. Nenhum cachorro quis beber o sangue. Nenhuma mosca tinha tempo de plantar larvas no cadáver. A camionete cinza veio firme. Como rolo compressor ela ganhou velocidade. Pesada, andou sobre o peito, andou sobre os ossos, sobre o asfalto. Fez tudo sumir e quando alcançou a cabeça, arrebentou de uma vez o crânio. O sangue respingou e espalhou o DNA falecido por alguns metros, mas o que nunca desgrudou das entranhas da roda foi um pedaço de miolo que tomou conhecimento das estradas do mundo.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
O Segundo Depois
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