quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Peso da Derrota

  1. E quem disse que há outro jeito de pensar? Me encarou, ao fundo dos olhos negros havia uma fúria desmedida, eu não fazia em minha mente nenhum molde de dimensão para aquele tipo de prensa; minha pouca experiência estava perdida no meio de um mar de sensações estranhas. Olhei para o gramado, irregular, derrapagens, os trechos descolados, as raízes saltando leves mexiam com uma brisa sutil... O barro na sola do meu tênis encardia minha meia, o suor descia até a ponta do meu nariz, trazia o desconforto para cada dobra do meu corpo, a musculatura suplicava... exaustão; ao mesmo tempo, as palavras daquele lazarento ecoando em minha cabeça e aumentando chama do gás que elevava meu espírito. Voltei para o campo, reuni os rapazes e com eles, bolamos uma ultima estratégia de jogo, a qual levaríamos para o show dos últimos tempos.
  2. A bola oval pesou no gramado, na contagem específica ela pesou em minhas mãos, e foi passada, de um a um, mas nenhum discurso que conseguisse fervilhar em sua alma por toda a eternidade seria capaz de inverter o placar daquela noite.
  3. O fim de semana passou, mas eu não passei por ele. Em casa, deitado a todas as horas mentalizando os erros, um a um; eles iam pregando, se afundando cada vez mais fundo em minhas chagas recentes. A dor desmedida ia flagelando lentamente, espalhando a dor como veneno de serpente injetado diretamente em sua cabeça. Você sente o calor mortal se diluir em sua carne, falhar seus sentidos, tenta se debater, se manter de pé, mas está babando, tendo convulsões enquanto a fera está por te quebrar e engolir. Seus olhos são lentamente trazidos para de baixo do couro frio, o desespero chega em seu nível maior e você chora em presença da morte; como se naquele momento adiantasse, naquele momento, você já morreu. É só esperar o espírito encontrar o caminho.
  4. Em cobertas esconde a vergonha, você não fez o máximo, você não foi o máximo. você falhou com a pessoa mais importante. Não falhou com seu amigo, nem com seu treinador, não com sua namorada, ou com toda a torcida que dependia de você. Você falhou com sua honra. Não merece olhar para a cara de tristeza de ninguém, observando de canto, o seu andar pelo corredor. Não merece o toque no ombro, nem ouvir: Você deu o seu melhor. Porque nunca é verdade.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Execução na Praça

  1. Nublada tarde. Nublado dia. Nublou a hora. O instante não deve ser pintado com cores vivas, apenas tons de cinza, marrom e preto. O instante deve ser esquecido. O aglomerado estava em torno de uma armação de madeira. Como um palco teatral, um pouco mais alto que uma mesa, dando a todos visão do que em cima do tablado acontecia. No meu entorno, pessoas sem banho, o fedor vivia entre os homens. Vivia em seus costumes medievais. No alcance da visão geral, um rei. Um rei que tirava a coroa e a entregava para quem fazia a aplicação das leis. O pedaço de metal pouco reluzente, pouco polido foi deixado de lado em um púlpito precário. O homem do bolso traseiro tirou um pergaminho e expressou meia duzia de palavras, que para todos pareciam muitas palavras sem meias. De bruço o condenado deitou com expressão corajosa na guilhotina. Apenas com o canto da vista, procurou o vulto em vestes escuras que ia soltar a corda. A apreensão na cena que viria a seguir deixou a praça em silêncio sepulcral. O rei tentou exprimir seus últimos instantes, mas não conseguiu. No meio de uma frase sem importância o carrasco soltou a lâmina obliqua que desceu com uma mortal sede. Mas não se ouviu o barulho da cabeça descansando no cesto para onde deveria escorrer. O que ouvimos foi um grito, uma suplica dolorida de uma alma transgressora. O homem atras do púlpito olhou para o carrasco que novamente subiu a lâmina. O sangue estava impresso nela até uma altura. O corte não havia sido perfeito. Olhamos para o pedaço de ferro subindo, seu fio, o poder de tirar a vida estava reduzido pela ferrugem e imperfeiçoes do uso. Uma mulher, perto de mim, levava as mãos a boca, barbarizada, descobrindo naquele instante o que, provavelmente, seu marido havia sentido. Novamente a lâmina desceu e desta vez fez o rei desmaiar, sua cabeça ainda ficou presa por fios de pele e músculo e só parou onde devia parar com mais uma ultima descida do metal.

O Segundo Depois

  1. Saiu para a rua o homem grosseiro, andava sem olhar para ninguém, para nada. Não olhava nem para si mesmo. Não podia ser diferente a imagem que sucedeu. Nenhum carro acendeu o farol para ele. Foi morto ali mesmo, atropelado. Ninguém olhou para ele, ninguém parou para olhar, pois estavam ocupados demais olhando para eles mesmos. O ônibus amarelo foi o primeiro que deixou o corpo todo esfolado. As mãos ensanguentadas, o osso da perna com uma ponta para fora. Um hematoma feio na testa, e na nuca, a cabeça aberta. Sangue, cabelo e pele, uma massa escrota. Ficou ali e o sol não saiu. Um apressado carro preto descolou as pernas do tronco, moeu a carne que estava grudando as partes. A artérias, já desfalidas tentavam se esvaziar, um pouquinho mais, e mais um córrego. Nenhum cachorro quis beber o sangue. Nenhuma mosca tinha tempo de plantar larvas no cadáver. A camionete cinza veio firme. Como rolo compressor ela ganhou velocidade. Pesada, andou sobre o peito, andou sobre os ossos, sobre o asfalto. Fez tudo sumir e quando alcançou a cabeça, arrebentou de uma vez o crânio. O sangue respingou e espalhou o DNA falecido por alguns metros, mas o que nunca desgrudou das entranhas da roda foi um pedaço de miolo que tomou conhecimento das estradas do mundo.