quinta-feira, 7 de julho de 2011

Alex, Eu e Cirus

  1. A galera tava jogada, sem nada para fazer. Eu encostado no muro, Alex sentado um caixote de madeira e o Cirus em pé, de costas para a rua, sem movimento. Nenhum carro, nem mesmo um maldito fusca passava por ali havia algum tempo. Então fomos tomar um guaraná no seu Domingos, logo ali na esquina. Quem encontramos lá? Esmerald. Estava ela lá, igual a uma puta com o novo namorado. Um esquisito de um bairro ali pra cima. Alex ficou vermelho na mesma hora. Mas eu consegui desviar a atenção dele. Cirus pegou algumas garrafas e fomos beber ali na calçada mesmo. Depois do showzinho de Esmerald ela foi com o 'bacana' em uma lata velha qualquer. Eu tava de boa. Mas tinha gente que não. Depois de bate um papo alto. Demos mais algumas voltas pela quadra. Não foi uma tarde muito boa. Segui meu rumo e umas quatro horas depois Cirus me liga alucinado.
  2. "Corre pra cá, corre pra cá" Eu fui, mas não fazia ideia do que estava pra acontecer. O Alex empurrava o bacana, o bacana empurrava o Alex, até ai beleza. Mas não é que o filho de uma puta tira uma faca! O bacana tirou uma faca! Não deu outra né. Só escuto um tiro. Esmerald nunca ligo pro retardado. Nem sentiu. Pra você vê, ela nem tava lá quando aconteceu. E quando soube, nem uma lágrima rolou. Tinha sangue e miolo pra todo o lado. O tiro pego na nuca. O cara morreu na hora. Nem precisa fala que o povo já tinha vazado com medo do mundo. Medo de qualquer estralo. A gente fez o certo né, empacotamos e queimamos o cara. Cirus cuida muito bem daquela arma, ela parece que nunca foi usada até aqui está tudo tranquilo. Alex voltou com a putinha dele e tudo estava como antes.
  3. Todo meio dia, almoçava e ia me reunir com os dois. Mas na tarde seguinte não foi assim, Alex não foi nos encontrar. E como é aquele ditado? Quando a montanha não vai até Maomé, Maomé vai até a montanha. Então eu e Cirus fomos atrás do pimpolho perdido. No caminho ele me pergunto: "Bruno, que cê acha que rolô?" Falei que provavelmente nada. Que ele devia ta comendo a putinha e tirando todo o atraso. Quando chegamos na baia dele, não deu outra, não é mesmo? Falou algo assim: "Manos, não vai rolar mais, vou pega um trampo e cuidar da minha vida" Ri pra caralho. Ele tava dominado. Totalmente dominado, tava virando honesto. Já não dava mais. Do caminho que ele escolheu, não tinha volta. Também ele não parecia querer voltar. Pensei com Cirus e um a menos não iria afetar em nada.
  4. Dali pra frente só nós dois, eu sentado no caixote, Cirus encostado na parede e a rua deserta, sem nem um maldito fusca. As vezes um falava algo, um papo surgia de um conto. Um papo alto. Outro dia Cirus sugeriu: "Vamos toma um guaraná ali na esquina, no seu Domingos?" Sim, nós fomos. Não tinha ninguém lá. Aquela tarde foi um porre. Também foi a ultima vez que eu vi o seu Domingos. O velho foi preso por trafico ilegal de drogas. Ele era o patrão do lado oeste da cidade. Depois que ele foi em cana, um outro cara, um tal de Farias dominou a região. Dica valiosa, se você deixar seu negocio com alguém, não deixe com um bundão.
  5. Farias, na maior parte do tempo era banaca, no bom sentido. Mas as vezes dava uns pitis estranhos. Não gostei de trabalhar com ele. Cirus também não, mas o que iriamos fazer não é mesmo? Ele mando um tal de Gará, pra se ficar de costas pra rua. Esse era nosso novo Alex. Um bosta, tinha jeito de espião. Então aprontamos para ele se dar mau. Não deu certo. O cara estava por cima da carne seca. Deu um bolo fenomenal e tive de dar no pé. Cirus não teve tanta sorte. Eles nos perseguiram e acabaram atropelando ele. Minha sorte foi ter me escondido em uma árvore. Acho que nunca passei tanto medo. Cortei meu cabelo e fui de dedão para a cidade vizinha. Não me acharam até agora. Aqui fiz algumas amizades. É o que mais rápido e melhor faço. Entreguei também as posições das bocas do Farias e com meu bando, organizo silenciosamente a guerra. Por que um dia esse mundo será meu.

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