quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Execução na Praça

  1. Nublada tarde. Nublado dia. Nublou a hora. O instante não deve ser pintado com cores vivas, apenas tons de cinza, marrom e preto. O instante deve ser esquecido. O aglomerado estava em torno de uma armação de madeira. Como um palco teatral, um pouco mais alto que uma mesa, dando a todos visão do que em cima do tablado acontecia. No meu entorno, pessoas sem banho, o fedor vivia entre os homens. Vivia em seus costumes medievais. No alcance da visão geral, um rei. Um rei que tirava a coroa e a entregava para quem fazia a aplicação das leis. O pedaço de metal pouco reluzente, pouco polido foi deixado de lado em um púlpito precário. O homem do bolso traseiro tirou um pergaminho e expressou meia duzia de palavras, que para todos pareciam muitas palavras sem meias. De bruço o condenado deitou com expressão corajosa na guilhotina. Apenas com o canto da vista, procurou o vulto em vestes escuras que ia soltar a corda. A apreensão na cena que viria a seguir deixou a praça em silêncio sepulcral. O rei tentou exprimir seus últimos instantes, mas não conseguiu. No meio de uma frase sem importância o carrasco soltou a lâmina obliqua que desceu com uma mortal sede. Mas não se ouviu o barulho da cabeça descansando no cesto para onde deveria escorrer. O que ouvimos foi um grito, uma suplica dolorida de uma alma transgressora. O homem atras do púlpito olhou para o carrasco que novamente subiu a lâmina. O sangue estava impresso nela até uma altura. O corte não havia sido perfeito. Olhamos para o pedaço de ferro subindo, seu fio, o poder de tirar a vida estava reduzido pela ferrugem e imperfeiçoes do uso. Uma mulher, perto de mim, levava as mãos a boca, barbarizada, descobrindo naquele instante o que, provavelmente, seu marido havia sentido. Novamente a lâmina desceu e desta vez fez o rei desmaiar, sua cabeça ainda ficou presa por fios de pele e músculo e só parou onde devia parar com mais uma ultima descida do metal.

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