sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ninguém te Proibiu a Canção

...O velho Augusto César anda sem rumo pela calçada da praça central. Ele pega agora o caminho para observar o chafariz. Chega em passos curtos em trajes de tons de marrom e creme. A boina quase se movimenta com uma brisa. Ele se encosta no para-peito para olhar a água se movimentando lentamente, mas a substancia está estática. A praça não funcionava mais desde 1988. Fechada pois a prefeitura não queria mais gastos com um monumento que vinha sofrendo depravação. Eles pararam de dar bola, e as coisas pararam de fazer sentido. Mas naquele dia, estavam ainda vivas as lembranças de sua vida. Elas podiam ser reencenadas a partir do brilho daquele olhar.

Ode Felicitária

...Desejos são pedaços de carne podre, são larvas que se alimentam com voracidade de tudo o que vêem. É certo que se duas partes contaminadas se encostarem, não existem mais duas partes. Como nunca existiu. Mas temos dois olhos, e a percepção disso só aumenta o poder das distorções. Como se duas coisas conseguissem ter a mesma ideia sobre uma.
...Nós, como canibais desdentados, matando leões para comer suas fezes. Criamos direitos e deveres para conseguirmos assim esquecer a busca dos sorrisos. Concentramos as atenções de lanternas para espelhos, e nos maravilhamos com o resultado de um corte no meio da esperança.

Desterros e Coesões

...Laterais do tempo que pelas beiradas se criam. Não fazem tanto sentido quanto fizeram; num passado que nunca existiu. As estrelas se guiam pelo vento, e a rosa ainda se orienta pelas marés. Nunca se ficou sabendo ao certo; qual era o verdadeiro paradeiro das almas, nunca ficou sabido certo, quem era o homem. Erguiam muros a tempos e templos para adorar o filho que nunca veio. Pois se o príncipe nunca nasceu, quem ocupou o trono?
...Salvem as cabeças baixas que duram séculos de opressão. Impressões que são apenas borros de tinta, flutuando no papel. Nos panos de seu vestido, resta apenas a certeza, de que os olhos já estão secos e acostumados são as narinas com o clima. Não podem ser tão úmidos, não podem estar unidos. Um único ideal nunca foi o ideal para o qual se permanece. Um viva ao tempo que passa e ao manto que mantém erguida a pedra. Em mil faces cortadas segura o brilho real de uma vitória. São muitos que não olham. São tantos que não se pode olhar, ninguém quer tirar a prova. Pois não tem um ali que mereça ter a prova tirada. Nem o santo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Diamantes São Para Sempre - Parte II

...A dona do orfanato polonês repousava no sofá, como de costume fazia todas as tardes. Usava um longo vestido de algodão, tingido de preto a antiga moda cristã. Quando um dos órfãos se aproximou. Trazia em suas mãos uma caixinha de fósforo. Pé ante pé, andou até a escrivaninha, onde pegou alguns papeis de documento e os repousou sobre a cabeça da mulher. Ali mesmo riscou o fósforo, e o estrago estava feito. Saia da sala calmamente, ouvindo com orgulho os gritos de dor senhora. A chama que tomou conta do papel logo queimou sua retina e bastou um pouco da brasa cair na roupa para dominar o vestido. Slakoviski olhou uma última vez para onde estaria seu dedo do meio deformado, e mostrou para aquele corpo em chamas. Ainda que não tivesse importância naquele momento. Era o que ele aguardava desde o dia em que ela havia o quebrado. 

Diamantes São Para Sempre

...Colocou as crianças em fila, como quem colocava condenados. De costas para a parede. Os olhos de predador tentavam distinguir, dentre aqueles, o verdadeiro culpado. Eram oito crianças, cada uma com seus talvez dez anos. Talvez menos. Todos usavam o mesmo uniforme cinza. Todos meninos com o cabelo cortado em forma de tigela. Todos tinham as mãos sujas e nervosas. Todos carregavam sobrenomes poloneses. Todos órfãos.
..."Senhor Slakoviski..." Os pequenos cerraram os olhos. "...Um passo a frente". Todos eles sabiam, que dentre os oito. Este era o que menos tinha chance de ter feito qualquer coisa errada. A dona do orfanato também sabia. Mesmo assim encarou as sardas do menino como uma confissão. A pequenina cabecinha se ergueu. Ele havia entendido. Sua mãozinha estendeu-se. O ar vibrou violento e rompeu em um estalo, dramatizado pela queda do garoto ao chão. Lentamente ele se levantou. Não se entregaria. A vara ergueu se no ar mais uma vez. E mais outra. E mais outra. O quinto vergão, no mesmo lugar, deu lugar a nascente de um fino rio de sangue. Era o suplício do corpo, suicidando-se, mandando pelos poros seu nutriente. Mais uma vez os pequeninos fecharam os olhos.
...Haviam passado alguns dias, Slakoviski repousava na janela, com a mão enfaixada. Na gase, restavam ainda sinais da atrocidade, quando um dos garotos se aproximou. Era o mais velho da turma, estava encostado na parede e junto com os outros amigos, assistiu o corajoso garoto, ter um dedo quebrado.
..."Slakoviski..." Chamou o menino parado à porta. O órfão virou-se e viu Krushenski o olhando. Eles caminharam um em direção ao outro e se abraçaram como irmãos. "Obrigado amigo!"  

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Suplício de Rato

  1. Todo entocado escondendo-se da ratoeira armada pelo patrão na semana passada: O olhar amigável, bigodinho que era um nada debaixo daquele nariz abatatado; tão grande e redondo o nariz que não precisava aproximar tanto para enxergar a olho nu os poros da pele, todos preenchidos pela poeira poluente da cidade grande; região onde futuramente governarão os cravos; as sobrancelhas arqueavam com uma expressão de dar dó e ao mesmo tempo de se mostrar superior, por traz do terno; o gordo, representado nas feições ante-postas apertava com sua mão os finos dedos de seu empregado magricelo do sorriso amarelado, na falta de um dente Joca falava: "Mais senhô do cé... E carque no trabá da porca..." Riam dois, cada qual com seu motivo oculto. O motivo de Joca era agradar, não sabia nem falar, quanto escrever. No curto período que frequêntou a escola ninguém o ensinara a pensar. De modo que: Ninguém sabe como, mais o Dr. Santão deixou claro sua intenção nas entrelinhas, claro o suficiente para o proletariado entender; e foi assim, que Joca começou a usar seu esqueleto fino e longo para desviar dos tiros de olhar e voz.
  2. Chegava em lugar de descançar, a toca nao era suficiente. Implicava com tudo o que parecia uma fresta para patada. Nas últimas semanas tratou-se de sumir da vista de todos. E não foi demitido por ninguém, se não por justa causa. Ficou sabendo pelo folheto da empresa, que dizia: "Dispensados do mês" E estava escrito segundo um homem na rua, seu nome, numero de identidade, idade, telefone e uma descrição bem da mais ou menos. Como rato em cima de ratoeira enferrujada ele andou, mas acabou pisando muito forte na trava.

Os Motivos


  1. A vida em uma cidade grande pode ser desestimulante. Algumas pessoas sabem disso. Fábio era uma delas, um advogado mediano, que penava para ganhar o pão de cada dia. Esforçava-se mas não conseguia comprar a casa dos sonhos. Sempre questionava ao pastor de sua igreja: "Mas, eu não sei o que há de errado! Contribuo com a minha parte do dízimo todo o mês. Corretamente! Deus apenas não me atendeu ainda!" Da batina o homem fitava a barba mal feita do advogado e dizia: "Tenho certeza de que Deus há de te atender... O que você pode fazer é aumentar a sua contribuição... Talvez assim, o Senhor suba você na lista de prioridades dele!" "Você acha mesmo padre?" Um brilho de esperança nasceu no rosto de Fábio. "Com certeza meu filho!"
  2. Do outro lado da rua, Annita, secretaria tentava cruzar a rua para avisar ao seu chefe, que o chefe dele, havia o demitido e posto outro em seu lugar. Não teve muito sucesso. Pois quando entrou na agropecuária que ficava do lado da igreja "Assembléia do Santo Salvador" e perguntou pelo Dr. Pontes, o homem de bigode grisalho atras do balcão falou que ele havia saído já a alguns minutos com uma nova coleira para seu novo cachorro. Com uma cara pré-ocupada ela saiu da construção que fedia à cachorro para a calçada irregular, e dali tentava cruzar a rua novamente quando Fábio pôs se ao seu lado e simpático comentou: "Será que conseguiremos cruzar ainda hoje?" A loira deu apenas um meio sorriso e voltou a se concentrar em seu carro. "Sou advogado! Deus irá me ajudar!" "Qual Deus? Quê Deus?" "O Senhor!" Os olhos castanhos se encaravam, as duas bocas não nutriam sorrisos. "Não achei engraçado!" Foi quando Annita percebeu de onde aquele homem nem muito gordo, nem muito magro havia saído, ela soltou um sorriso, o advogado entendeu errado.
  3. "Tão bom encontrar uma irmã!" "De fato..." Falou confusa, mas logo retratou-se. "...Estou com pressa, tenho que ir!" "Nos vemos no culto hoje a noite!" Ela tentou cruzar mas não teve chance. "Não. Não quero ninguém me roubando." A cara que Fábio fez naquele dia, foi a mesma que Annita quando, duas semanas depois reconheceu o homem em uma pousada retirada com temática de campo. Mas a cara que a secretaria fez quando percebeu aquele rapaz caminhando em sua direção na hora do café da manhã foi um pouco mais feia. Foi fria. "Não quero ouvir baboseiras sobre a sua religião." Estranhou. Não entendeu; e quando entendeu apenas saiu. No início da tarde, um pequeno grupo deslocou-se para uma caminhada aos arredores da fazenda, os dois estranhos estavam lá.
  4. No meio de uma mata fechada, um grupo de sete andava em fila quando de repente pararam. Os últimos não entenderam, mas logo ficaram estáticos. O tempo não transcorreu normalmente a partir deste momento; o silêncio foi o grande culpado. Nenhuma palavra era trocada, apenas gestos, toques e olhares. Como um grupo de surdos mudos. Ninguém precisa saber a linguagem dos sinais para aprender a usá-la com perfeição quando necessário. Em uma clareira, a luz tomava conta das árvores retorcidas e mostrava um solo sem grama, a terra vermelha, úmida, formava barro tão liso quanto gelo. No meio da clareira uma onça debruçava-se faminta em uma carcaça incompreendida. Como uma criança que quebra um vaso, todo o grupo deu meia volta e seguiu como se estivesse em um enterro. Saindo da trilha, depois de 15 longos minutos de caminhada, suspiraram. Não sabiam o que fazer, estavam alegres, sorridentes. Estavam vivos.