quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Os Motivos


  1. A vida em uma cidade grande pode ser desestimulante. Algumas pessoas sabem disso. Fábio era uma delas, um advogado mediano, que penava para ganhar o pão de cada dia. Esforçava-se mas não conseguia comprar a casa dos sonhos. Sempre questionava ao pastor de sua igreja: "Mas, eu não sei o que há de errado! Contribuo com a minha parte do dízimo todo o mês. Corretamente! Deus apenas não me atendeu ainda!" Da batina o homem fitava a barba mal feita do advogado e dizia: "Tenho certeza de que Deus há de te atender... O que você pode fazer é aumentar a sua contribuição... Talvez assim, o Senhor suba você na lista de prioridades dele!" "Você acha mesmo padre?" Um brilho de esperança nasceu no rosto de Fábio. "Com certeza meu filho!"
  2. Do outro lado da rua, Annita, secretaria tentava cruzar a rua para avisar ao seu chefe, que o chefe dele, havia o demitido e posto outro em seu lugar. Não teve muito sucesso. Pois quando entrou na agropecuária que ficava do lado da igreja "Assembléia do Santo Salvador" e perguntou pelo Dr. Pontes, o homem de bigode grisalho atras do balcão falou que ele havia saído já a alguns minutos com uma nova coleira para seu novo cachorro. Com uma cara pré-ocupada ela saiu da construção que fedia à cachorro para a calçada irregular, e dali tentava cruzar a rua novamente quando Fábio pôs se ao seu lado e simpático comentou: "Será que conseguiremos cruzar ainda hoje?" A loira deu apenas um meio sorriso e voltou a se concentrar em seu carro. "Sou advogado! Deus irá me ajudar!" "Qual Deus? Quê Deus?" "O Senhor!" Os olhos castanhos se encaravam, as duas bocas não nutriam sorrisos. "Não achei engraçado!" Foi quando Annita percebeu de onde aquele homem nem muito gordo, nem muito magro havia saído, ela soltou um sorriso, o advogado entendeu errado.
  3. "Tão bom encontrar uma irmã!" "De fato..." Falou confusa, mas logo retratou-se. "...Estou com pressa, tenho que ir!" "Nos vemos no culto hoje a noite!" Ela tentou cruzar mas não teve chance. "Não. Não quero ninguém me roubando." A cara que Fábio fez naquele dia, foi a mesma que Annita quando, duas semanas depois reconheceu o homem em uma pousada retirada com temática de campo. Mas a cara que a secretaria fez quando percebeu aquele rapaz caminhando em sua direção na hora do café da manhã foi um pouco mais feia. Foi fria. "Não quero ouvir baboseiras sobre a sua religião." Estranhou. Não entendeu; e quando entendeu apenas saiu. No início da tarde, um pequeno grupo deslocou-se para uma caminhada aos arredores da fazenda, os dois estranhos estavam lá.
  4. No meio de uma mata fechada, um grupo de sete andava em fila quando de repente pararam. Os últimos não entenderam, mas logo ficaram estáticos. O tempo não transcorreu normalmente a partir deste momento; o silêncio foi o grande culpado. Nenhuma palavra era trocada, apenas gestos, toques e olhares. Como um grupo de surdos mudos. Ninguém precisa saber a linguagem dos sinais para aprender a usá-la com perfeição quando necessário. Em uma clareira, a luz tomava conta das árvores retorcidas e mostrava um solo sem grama, a terra vermelha, úmida, formava barro tão liso quanto gelo. No meio da clareira uma onça debruçava-se faminta em uma carcaça incompreendida. Como uma criança que quebra um vaso, todo o grupo deu meia volta e seguiu como se estivesse em um enterro. Saindo da trilha, depois de 15 longos minutos de caminhada, suspiraram. Não sabiam o que fazer, estavam alegres, sorridentes. Estavam vivos.

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